REFUGIADOS: A ALEMANHA E A EUROPA NUMA ENCRUZILHADA - Henrique Sousa

20-01-2016 22:56

Os graves acontecimentos da noite da passagem de ano em Colónia constituem um ponto de viragem no debate na sociedade alemã sobre os refugiados e a imigração e foram mais combustível para alimentar a xenofobia e o fechamento da Europa.

No país com mais imigrantes na Europa (mais de 8 milhões e mais de 10% da população é estrangeira, sem contar com o elevado número de estrangeiros indocumentados) e que recebeu no ano passado 1,1 mihões de refugiados, a violência nas ruas de Colónia foi o rastilho que faltava para incendiar o debate e elevar a um novo patamar o debate e a fractura na sociedade alemã sobre o acolhimento dos refugiados. Com evidentes ganhos para a extrema-direita, o movimento xenófobo Pegida e o novo partido da direita radical AfD (Alternativa para a Alemanha), que exploram e empolam o envolvimento de imigrantes ou requerentes de asilo nos incidentes de Colónia e noutras cidades alemãs para canalizarem toda a indignação social sobre eles, para lançarem o anátema sobre todos e sobre a política alemã de acolhimento e integração. Assim apertam o cerco à coligação governante, forçando-a a ceder às exigências xenófobas de exclusão e de fechamento da Alemanha. Se tal acontecer, será mais um prego no caixão da União Europeia, na liberdade de circulação e nos Acordos de Schengen.

O que se passa na pátria da Revolução Francesa com Hollande e o seu Governo, que estão a assumir, com políticas securitárias e de exclusão, algumas das bandeiras da Frente Nacional, faz temer o pior quanto à Alemanha.

O dossier online da revista Der Spiegel (em inglês) ajuda a compreender a gravidade social e política da questão na Alemanha e a encruzilhada e as escolhas muito difíceis com que estão confrontados os cidadãos, os partidos e os governantes alemães.

A somar à deriva europeia da austeridade, que coloca a Europa sob comando dos mercados financeiros, a questão dos refugiados e das migrações em massa confronta decisivamente a capacidade do espaço europeu ser ou não um espaço de acolhimento e de integração compatível com a segurança dos cidadãos, a democracia e a liberdade.

Não há respostas nem soluções fáceis para isto. Poupemos uns aos outros frases ocas e grandiloquentes que resvalam ou passam ao lado desta realidade muito exigente. E mal irá a esquerda se se refugiar em discursos genéricos que fujam ao debate concreto das políticas e das escolhas e a um debate verdadeiro com os cidadãos. Não vale ceder à demagogia fácil (que está na moda erradamente chamar de populismo) para não perder votos. É preciso separar corajosamente as águas relativamente ao discurso xenófobo da direita radical e da extrema-direita. É preciso falar claro e confrontar os cidadãos sobre as escolhas e os valores que é preciso proteger para não nos negarmos como seres humanos e não enterrarmos séculos de combate pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade. Mas é preciso também encarar de frente os problemas e as legítimas exigências da segurança e da protecção dos cidadãos, que inexoravelmente aumentam em sociedades abertas sujeitas a fortíssimas pressões migratórias, num mundo violento, incerto e global como o nosso.

Não podemos desistir, todos, de lutar pela construção de soluções cooperativas e solidárias à escala europeia para organizar e enquadrar o acolhimento e o fluxo dos refugiados. Nem de abandonar a exigência de que a UE e todos os Estados, incluindo Portugal, se empenhem na resolução das guerras e privações que são a causa primeira deste desastre humanitário e social que ameaça fazer naufragar os fundamentos e valores democráticos da nossa vida em comum. Que haja coragem dos responsáveis políticos, todos, para não cederem à demagogia fácil e à lógica dos tablóides e para falarem verdade e claro aos cidadãos sobre as escolhas e os custos das soluções. E de todos nós para não deixarmos o terreno livre na sociedade aos que convertem o estranho e o estrangeiro no novo bode expiatório de todos os riscos e de todos os males. É verdade que neste canto mais ocidental da Europa as coisas chegam mais tarde e devagar e não têm neste domínio a pressão e a dimensão doutras paragens. Mas não vamos ficar imunes.

Henrique Sousa

 

http://www.spiegel.de/international/germany/cologne-attacks-trigger-raw-debate-on-immigration-in-germany-a-1071175.html 

New Year's Eve in Cologne rapidly descended into a chaotic free-for-all involving sexual assault and theft, most of it apparently committed by foreigners. It has launched a bitter debate over immigration and refugees in Germany -- one that could change the country. By SPIEGEL Staff

spiegel.de|De SPIEGEL ONLINE, Hamburg, Germany

 

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