Pecados Capitais

04-05-2010 13:53

 

Quando a crise financeira despontou, com toda a sorte de imprevisibilidade mas de maléficas consequências para as economias, um administrador bancário português afirmou, peremptoriamente, que, a partir dali, nada ficaria como dantes.

Avesso à economia neoliberal, cujo fim adivinhava próximo, pensava que um novo paradigma económico surgiria, sem bem que não conhecesse os seus contornos.

Durante meses e meses, fui assistindo, perplexo, ao desmoronar de uma estrutura financeira e económica baseada no lucro e nos consumos desmesurados. Faliram bancos, encerraram indústrias, aumentou, galopantemente, o desemprego e o endividamento dos estados cresceu para colmatar as dificuldades sociais e empresariais. Tudo isto parecia indiciar a morte do sistema vigente.

Acreditámos estar no dealbar de “um mundo novo”, em que a primazia do homem, do ambiente, da igualdade e da justiça social, presidiriam a uma economia mais solidária, virada para a inclusão de todos os homens numa nova arquitectura internacional.

Havia muita utopia, mas em tempo de crise, há mais facilidade de mudança do que nos períodos de estabilidade e de crescimento.

Este projecto de sociedade, que estaria na mente de muitos cidadãos e governantes até, esbarraram, no entanto, com as fortalezas neoliberais quase intransponíveis. Os senhores do dinheiro – os ricos deste mundo – não foram abalados e continuaram a avassalar Estados e políticas governamentais, recorrendo a grupos de pressão instalados nos corredores do poder da União Europeia e noutras instâncias mundiais.

O capital e o dinheiro não têm rosto, por isso intervêm em tudo quanto redunda em lucro desenfreado. E quando os especuladores caçam a presa, sugam-na até ao tutano.

Este foi um risco que as instâncias governamentais não souberam ou não quiseram anular. Os estados deixaram à solta as operações das instituições financeiras, detentoras do dinheiro de todos nós – ricos e pobres – e agora elas estão a vergar a seu belo prazer, os países mais débeis.

Os entendidos dizem que os países mais frágeis da zona euro estão a ser vitimas dos sanguessugas do capital, que lhes exigem juros altíssimos para saldar as suas dívidas e viabilizarem as economias de milhões de cidadãos.

Perante isto, não deixa de ser condenável a atitude da União Europeia, nomeadamente da Alemanha, pela falta de coragem ou de interesse em apoiar, solidariamente, a situação de alguns países da ZE.

Convulsões sociais

A situação que se vive na Grécia, em Portugal e, quem sabe, proximamente em Espanha, creio que vai ter graves implicações na estabilidade social e segurança de toda a Europa.

Os protestos em Atenas, indiciam que, também em Portugal, os desempregados, os trabalhadores de mais baixos níveis salariais, os reformados e os jovens sem perspectivas de emprego, são estratos sociais vulneráveis a protestos irrealistas ou comportamentos desviantes, por terem os seus direitos afectados.

E não se alegue que somos um país dependente das economias comunitárias e dos seus apoios financeiros de que muito beneficiámos.

Há uma consciência crescente, fundada na convicção de economistas de nomeada, de que, se Portugal não tivesse aderido ao euro, agora estaríamos em situação mais vantajosa para enfrentar a crise. Verdade?

O certo é que, nos próximos tempos, a maioria da população portuguesa, vai conhecer dificuldades maiores que aquelas por que passamos.

Certo é também que os sacrifícios não irão pesar nos bolsos dos mais afortunados, muitos dos quais, das cátedras sempre abertas, criticam as políticas sociais e os gastos desmesurados do Estado, sem perspectivarem saídas válidas para a situação que nos envolve. Esses discursos já não têm aceitação na opinião pública.

O povo quer sentir da UE, do Estado, dos governantes, dos deputados e dos autarcas, medidas efectivas para que rapidamente se encontrem melhores condições de vida.

E não perdoará se os políticos e os mais afortunados não abdicarem de parte dos seus altos salários e mordomias em favor do bem comum.
Esse será o melhor sinal de que estamos todos no mesmo barco.

Abril e Maio aconteceram para mudar a sociedade e a vida das pessoas.
Acreditamos que ainda é possível. “Pelo sonho é que vamos”.

José Gabriel Ávila
jornalista C.P. 536
http://escritemdia.blogspot.com/
 

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